Adeus a um amigo

Conversa com café. Era isso que animava aquelas quintas-feiras de tédio medieval. Toda semana era assim, descíamos aquela rampa sem nunca mencionarmos o cansaço. E com serenidade ele falava de coisas interessantes. Logo me perguntava: e o cello? Com uma cara malandra, um sorriso cerrado, de quem pensa com malícia: vamos ver o que ela me responde hoje. E assim ele acompanhava minhas descobertas musicais. Sempre com o olhar vivo de um completo curioso. Era isso que o fazia tão especial, tão incrível. E era como eu admirava sua inteligência. Nessa humildade ao conhecer as coisas, as coisas e os outros. Lembro um dia em que eu bebia um suco de cajá. Ele me olhou com cara de dúvida e perguntou: que isso? cajá? Não conheço. Expliquei que era uma frutinha laranja que não dava por aqui. Ele tomou um gole e reclamou: doce, né? Fazendo uma careta. E voltou radiante a me falar sobre como ele gostava do Antonio Meneses.
Conviver com o Ivan era assim...
tranqüilo e instigante.
“Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento
e aqui me deixo rente
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo”
(Monólogo de Orfeu. Vinícius de Moraes)
(Monólogo de Orfeu. Vinícius de Moraes)