Segunda-feira, Janeiro 25, 2010

Gatos, gatos...

Tem um gato que se esconde atrás da porta
E fica me esperando pra agarrar a barra do meu vestido
Que gosta de ficar olhando o mundo pela janela
E de fingir que ele está todo aqui dentro
Que acha que sou seu brinquedo
E me olha pela fresta da cadeira, pedindo que eu jogue sua bolinha
Esperando que eu o faça feliz

Tem outro gato que me agarra atrás da porta
E fica desvendando o que esconde o meu vestido
Que gosta de pensar sobre o mundo que está além da janela
Ainda que pareça que ele está todo aqui dentro
Que sabe que meu corpo é seu brinquedo
E me olha sorrindo, me chamando de gatinha
Esperando que eu o faça feliz

Tem um gato que não me deixa trocar os lençóis
Pula, corre, mia e me pede afago
E precisa de mim para encher seu pote de comida de manhã
Que acha que sou dele
E me espera todos os dias voltar do trabalho


Tem outro gato que aparece debaixo dos meus lençóis
Me espera despertar para sentir o meu afago
E sente comigo a preguiça da manhã
Que sabe que sou dele
E assim rumo tranqüila para mais um dia de trabalho

Domingo, Dezembro 27, 2009

Pressentimento

Ai! ardido peito
quem irá entender o teu segredo?
quem ira pousar em teu destino?
e depois morrer do teu amor?

Ai! mas quem virá?
me pergunto a toda hora
e a resposta é o silêncio
que atravessa a madrugada

Vem, meu novo amor
vou deixar a casa aberta
já escuto os teus passos
procurando meu abrigo

Vem, que o sol raiou
os jardins estão florindo
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade.


(Pressentimento - Elton Medeiros. Intérprete: Elza Soares. Álbum: Candeia e Elton Medeiros 1978) - Para baixar ou ouvir.

Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Pai-neira


A paisagem do campo é mutável. Um dia o terreno está cheio de colonião. Na semana seguinte, está limpo, com a terra exposta, ao sol. Na outra, podemos ver aquele matinho apontando o primeiro sinal da maniva. Dias depois, ela já é um arbusto que esconde embaixo de si o alimento. Gosto quando, me aproximando de um assentamento rural, vejo que ele se modificou. A cana de outrora não está mais lá. É possível avistar o horizonte, onde antes o verde da folha escondia o céu. E já posso ver, ao longe, o cenário instável que são os assentamentos, a diversidade de tons que contrasta com o canavial monocromático.
Da mesma maneira, a paisagem do campo tem suas perenidades. E essas perenidades são as árvores. Estas, por sua vez, contam muitas histórias. A mangueira que sobreviveu ao primeiro despejo. O pé de abacate plantado por alguém que já se foi. Aquele urucum que já estava ali e permaneceu por conta do esmero do novo morador. Ou o pé de amora que marca a divisa do terreno escolhido pelo seu Antonio. Eu já presenciei até briga de facão por causa de uma jaqueira. São histórias que ouço ao percorrer essa infinidade de vida que se tem no campo. Cada uma é um vestígio de passado e um projeto de futuro. A cada ano, elas acumulam em si e no lugar um bocadinho a mais de história, como se fossem testemunhas do tempo.
Há um lugar, um pequeno sítio ao lado de uma montanha que, quando criança, eu ouvia ser chamado simplesmente de Floresta. Bem no cume deste morro, mora frondosa uma enorme paineira. Podemos avistá-la da estradinha de terra. Ela fica lá encima, vigiando as outras plantas. Lá está o meu pai. Para chegarmos até ela, temos que atravessar uma trilha que nem sempre conseguimos ao menos saber onde ela começa. Nós a abrimos muitas vezes, mas sempre a Floresta se regenera e nós a perdemos novamente.
No entanto, a paineira continua lá. E, quando vou chegando ao seu pé, já começo a me lembrar de quando estive lá pela primeira vez. É assim que, ainda este ano, irei prestar minha homenagem à história que ela me conta e também pedir a sua benção.
"Lá no morro,
uma luz somente havia,
era a Lua que a tudo assistia..."
(Quando o samba acabou - Noel Rosa)

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Toque




O ar estava tranquilo, até meio parado. Parecia que pairava uma névoa amazonense na rua, que deixava tudo meio sépia, como quando nos filmes querem que pareça um sonho. O mundo parecia que ia ficando na pele, enquanto vivíamos. Tudo grudava, ocupando cada poro. E isso ia dando mais calor. Andar na rua era como encontrar esse ar denso que pairava. Íamos trombando nele. Mas ainda assim, não era pesado. Era uma mistura de agonia e satisfação. Afinal, estávamos ali. Ainda não sei direito como chegamos aquele bar, mas lá ficamos. Sentia aquela presença ao meu lado que me trazia tranqüilidade, calma. Sempre foi assim, como uma fumaça sem vento, que sublima leve, reta, uma linha branca em direção ao infinito. Tínhamos um ao outro, e algumas palavras das quais agora não me recordo. Lembro apenas da sensação de estar lá, vivendo tudo naquele agora. Um sorriso, um copo, uma mão nos meus cabelos e a infinita imagem da lua cheia que incrivelmente não se escondia, somente iluminava essa noite quente, abafada, envolvendo aquela conversa. Como e quando nos tocamos? Também não sei dizer. Só sei que foi inevitável. Em um mesmo movimento de pegar a garrafa? Enquanto descansávamos a mão sobre a mesa? Quando buscávamos um ao outro? Não sei. Só sei que aconteceu. E foi assim.

Terça-feira, Novembro 17, 2009

Família ê, família ah

Minha família é do caraaalho!!! Cada vez me impressiono mais com a capacidade dela me surpreender nas coisas mais pequeninas do nosso cotidiano e naquelas que demandam um esforço espiritual bem mais intenso. Adoro a maneira de fazer as pazes e transformar tudo em uma grande brincadeira de domingo à tarde, ou de rirmos daquilo que outrora foi a coisa mais trágica de nossas vidas. Acho que até por termos passado por situações muito sofridas e termos carregado o ímpeto da mudança como algo até que, de certa maneira, positivo, hoje vivemos um amor muito grande. E eu agradeço muito a essa mulherada... por me fazer feliz.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Guerra e Paz

Bandeira de Guerra
(Paulo Vanzolini - Acerto de Contas - disco 1)


Foi numa esquina da vida
Uma mulher em hora perdida
Um homem em ponto morto
Nessa base do tropeço e mau começo
Foi nascer contra a vontade esse amor torto
Me admira ter vingado, quem diria
Que fosse loucura pra mais do que um dia
Na verdade quem diria
Que enxergasse a luz do dia
Mas vingou e é coisa feita
Torto sim eu ostento
E ninguém me endireita
Mulher, já que Deus quer vamos em frente
Minha bandeira de guerra
Meu pé de briga na terra
Meu direito de ser gente

Minha bandeira de guerra
Meu pé de briga na terra
Meu direito de ser gente


Para baixar, com o Paulinho da Viola como intérprete.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Chacoalhão

Fumar um maço de cigarros, sentir a chuva na pele e o arrepio do frio molhado, ler textos lindos sobre o amor, nada me tira essa ansiedade que não consigo explicar. É como se o que vivo pudesse mudar de rumo como o vôo da borboleta, num pequeno instante, conforme a virada dos ventos. Ou como se tudo estivesse suspenso no ar, como a grama cortada que baila ao sabor da brisa quente e, quando retorna ao chão, deixa um cheiro bom daquilo que não existe mais.

O que será de todos nós com esta CPMI??

Chuva


Estou com frio. Passo minhas mãos no braço e sinto minha pele cheia de carocinhos do pêlo arrepiado. Ouço a chuva lá fora e percebo que no meu trajeto molhado para casa não fui capaz de olhar para o mundo. O guarda-chuva sobre minha cabeça, a mochila nas costas, a bolsa a tira-colo e a pressa do ônibus me levaram pela cidade como se fosse uma segunda-feira qualquer. O feriado parece que não existiu. Com a cabeça aérea percebi que as pessoas continuavam indo e voltando do trabalho, o comércio inteiro estava aberto, os ambulantes na rua. Mas não consegui me ater a detalhes, apenas a essa atmosfera que me rodeava e eu a entendia subjetivamente como um dia comum, uma sensação de “sempre”. Hoje para mim é feriado.
Acabei de chegar em casa e estou tentando lembrar de tudo aquilo que deixo de fazer, por não ter tempo. Coisas para mim. Arrumar gavetas, estudar e escrever meu projeto, lavar roupa, escutar um álbum que baixei, fazer música. Mas nada disso me apraz e vem uma sensação estranha de não saber o que fazer com o meu dia. Sinto apenas o desamparo do frio pelas sandálias molhadas de chuva. Acho que faz algum tempo que não fico sozinha em casa, sempre trabalhando, ou dormindo, ou fora. Sentada no computador, com meu gato dormindo no meu colo, continuo apenas pensando sobre a vida...
Correndo rápida como a gota no vidro da janela.